O mundo é feito de movimento.


Sempre que perdemos um amigo, principalmente um animal, colocamos aqui um post de homenagem. Relembramos os imensos momentos felizes que partilhámos com eles e deixamos a nossa eterna saudade, que terminará no dia em que o céu da boca arrefecer. Eu também já o fiz e, provavelmente, continuarei a fazê-lo. 
No outro dia, quando ia na Av. da República em direcção da casa da minha mãe, aconteceu-me algo estranho e pouco comum ao nível dos meus sentimentos para com outros seres. Não era um ser senciente que reclamava atenção, pois se o fosse talvez conseguisse bem mais. A minha e de todos aqueles que vão passando. Era uma senhora com os seus setenta e muitos anos, acho eu, que em voz alta sentada nas escadas dum banco, ironia do destino, pedia ajuda, carinho, atenção ao seu sofrimento. Como animal abandonado que espera de volta quem o abandonou. Todos nós. 
A cidade passa e eu também passei, mas enquanto tudo andava, porque o mundo é feito de movimento, eu parei. Voltei a trás e procurei os seus olhos, não o pano do chão. Esse nada diz. Parou a sua lamúria, por aquele momento, e olhando para mim não sorriu. Como pode sorrir quem sofre! Os nossos olhos ficaram a trocar palavras de emoção e naqueles olhos tristes cheios de súplica, vi o olhar de todos aqueles que eu amo. Os que ainda estão e os que já findaram. Estranho, apesar de ser uma pessoa com quem falava, a imagem que me veio à memória passando primeiro pelo coração foi a de todos os animais que eu já tive. Muitos. Peguei no meu porta-moedas e dei todas as moedas que lá tinha porque notas não havia. Não quero saber se é para comer, beber, dar, estragar ou guardar. Não me interessa o que fazem com aquilo que dou, pois deixa de ser meu aquilo que nunca foi. Falámos um pouco, muito pouco, para atenção que ela merecia. Agradeceu, agradeceu muito e sorriu. Tinha acabado de me dar qualquer coisa, bem maior do que aquela que lhe tinha deixado nas mãos, não no pano que nada diz, enquanto não deixava de olhar para os seus olhos esverdeados. Vestia casaco castanho até aos joelhos; meias pretas e sapatos pretos rasos; cabelo grisalho apanhado num rabo de cavalo para esconder a falta de água. 
Desejei-lhe sorte, o que é uma ironia, pois a sorte não faz justiça à vida. E segui, porque a vida é feita de movimento. Para onde, é que eu não sei!

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