ECONOMÊS


Estendes a mão ao final do mês
à espera dos trocos que ficam sobre a mesa
sejam, por fim, sacudidos para o chão.
O teu trabalho de horas, dias e outras vidas
que alimenta o banquete
do aforro que não tem coração.
Deixas o que precisas
para alimentar quem come
numa mesa que nada sobra,
bebes a água onde alguns mijam
a urina das bebidas que vês nas montras
onde só entra o patrão.
Escolhes a roupa para cobrir o corpo
aquecê-lo em dias frios
apesar dos remendos feitos de sobras
da vaidade dos que sem penas
se passeiam como um pavão.
Vaiam-te, sorrindo
porque assim não se veste
quem faz parte da corte
onde só entra quem é ladrão.
Os teus filhos na escola chumbam
a escola dos fundos, tapadas, recolhidas
sem qualquer razão,
apenas porque ali
não anda os filhos do cortesão.
Com pés frios, mãos enregeladas
escrevem o ditado que lhes gritam
sem qualquer hesitação
— estejam quietos, não se mexam
aquilo que vão viver
com humildade têm que aceitar,
pois isso é o vosso condão.
Tua mulher baixa a cabeça
para passar a roupa à mão
não a tua, mas a do aldrabão
que deixou as moedas esquecidas
na toalha que será um dia
a mortalha do teu caixão.

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